terça-feira, 12 de agosto de 2014

Luiz Gabriel Lopes

Hoje, quero falar de Luiz Gabriel Lopes. Confesso que, apesar de ter entrado em contato direto com seu trabalho há alguns meses, ainda conheço muito pouco sobre ele. Tenho apenas algumas impressões sobre sua música a apresentar.



É um ponto de vista personalíssimo e cheio de buracos, fruto do pouco que conheço e do que ignoro. Neste texto, inclusive, acabo abordando um aspecto bem específico de suas composições, em especial das letras.

Ter entrado em contato com sua música foi ter encontrado um verdadeiro manancial de ideias sonoras e uma poesia muito sensível, ao mesmo tempo em que muito direta e sem adornos desnecessários.

A primeira que ouvi foi Lembrete (LG Lopes / Gustavito / Chicó do Céu), que em minha opinião é bem representativa de um dos traços mais interessantes de algumas de suas letras.

É algo de que sinto muita falta na arte atual, mas que acho difícil definir. Tem a ver com talvez um dos mais antigos papéis da arte, que é representar a ligação do homem com o desconhecido. Não se trata, porém, do desconhecido como mistério, mas de uma jornada em direção ao auto-conhecimento e ao conhecimento do universo ao seu redor.

despertar pra uma nova travessia
deixar esvaziar
saber que a hora certa logo vem
sem pressa, deixa estar que não demora

Acho significativo o fato de alguém parecer cantar "depressa" ao invés de "sem pressa" no vídeo. É muito difícil remar contra essa maré da pressa, eficiência, velocidade máxima o máximo de tempo possível. Mas a arte ajuda!

Se concentre meu amigo
no impulso que nos faz cantar
e faz brotar a poesia sempre devagar 
e é devagar que se desfaz 
todo medo que insiste em apertar os nós mas meu amigo

reconhece-te a ti mesmo


dê valor ao caminho que te escolhe 

palavras têm poder
e os rastros que deixamos por aí
depressa vão chegar no infinito





Esse "libertar (d)o medo" também está muito presente em suas letras. A fé naquilo que vem "do alto", a vida guiada pelas estrelas, o ritmo natural, das marés, da chuva. Expressões de vida tão naturais quanto  despertar para dentro. Para isso, é necessário Desprendimento.

sono da maré
oração da chuva
deixa essa criança libertar o medo que você guardou
estrelas que levem no rumo certo
a estrada é o que vale a viagem
livre da tristeza o passo firme o peito forte aberto

ir pra dentro é despertar
desprender o brilho e receber o dia

Indo por esse caminho, a música vai além do mero exercício poético, do jogo de palavras, mas é veículo a expressar e despertar ideias e sentimentos que vou chamar aqui de maiores, na falta de um termo mais exato. E, através da simplicidade de sua forma, a letra consegue algo extremamente difícil: falar da existência humana, de sua fé, sem ser dogmático ou piegas. Consegue, de forma muito sutil, evocar os melhores sentimentos de paz e harmonia. Abaixo, um trecho de 1986.


transformando a fé numa oração pra se cantar



sim eu sei que há 

essa poeira que te faz latinoamericano e forte como eu

de sangue índio, vagabundo,

abençoado pelo rio e pelo sol:

ancestralidade de um cometa 

que passou naquele ano em que eu nasci

e me contou que éramos muitos por aí

desencontrados no universo 
e reunidos no planeta pra vibrar


O espaço de um blog é muito pequeno, por isso acabei abordando um único aspecto da música do Luiz Gabriel, mas esse está longe de ser o único e também não sei como o classificar em importância dentro de sua música. Vendo seus vídeos mais antigos, me parece que essa é uma vertente que ele tem explorado mais, talvez fruto de reflexões ou vivências recentes às quais dispense mais atenção recentemente.

Poderia gastar mais alguns capítulos falando do ritmo, da harmonia, de suas várias parcerias, do volume de suas composições, que muitas vezes se assemelham a seu diário de viagens. Poderia falr do TiãoDuá, do Graveola e de vários outros projetos. Mas recomendo a quem quiser conhecer mais, que o ouça.Tem muita coisa na Youtube e no Soundcloud.

Vou deixar abaixo uma entrevista de 2013 em que ele fala um pouco sobre alguns de seus trabalhos e manda algumas músicas.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Small blue dot, pale blue dot

Em 1990, a espaçonave Voyager 1 tirou uma foto da Terra a uma distância de 6 bilhões de quilômetros. Na fotografia, o planeta é tão pequeno que aparece como um ponto que mal se pode ver.



Alguns anos depois, o astrônomo Carl Sagan alocou os seres humanos no contexto de um infinito em seu livro Pale blue dot, que foi inspirado por essa fotografia. Seu discurso de 1996 é adaptado desse livro.


Olhe novamente para aquele ponto. Esse ponto é aqui. É a nossa casa. Somos nós! Nele, todos que você ama, todos que conhece, todo mundo de quem já ouviu falar, cada ser humano que existiu, viveu sua vida até o fim ali. Toda a soma de nossa alegria e sofrimento, as milhares de confiantes religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e cada fugitivo, cada herói e cada covarde, todo criador e todo destruidor de civilizações, todo rei e todo servo, todo casal apaixonado, cada mãe e cada pai, criança esperançosa, inventor e descobridor, todo professor de moral e cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, todo santo e todo pecador da História de nossa espécie viveu ali: num monte de poeira suspensa num raio de sol.


A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por tantos generais e imperadores para que, em glória e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim sofridas pelos habitantes de um canto desse pixel, pelos habitantes que mal se pode enxergar de algum outro ponto, o quão frequentes seus desentendimentos, o qual diligentes são para matar uns aos outros, o quão borbulhantes suas antipatias. Nossas posturas, nossa imaginada auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo. sã desafiados por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é um pontinho solitário num escuro cósmico que o abarca. Em nossa obscuridade, em toda essa imensidão, não há nenhum sinal de que ajuda virá de algum lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo que conhecemos. Não há nenhum outro lugar, pelo menos não no futuro próximo, para o qual nossas espécies poderiam migrar. Visitar, sim. Se estabelecer, ainda não. Goste ou não, para o momento, a Terra é onde nos estabelecemos. Diz-se que a astronomia é uma ciência que constrói nosso caráter e nos torna humildes. Talvez não haja melhor demonstração da tolice que é a presunção humana que a distante imagem de nosso minúsculo mundo. Para mim, ela sublinha nossa responsabilidade de lidar de forma mais gentil com o outro, preservar e amar nosso pequeno e pálido ponto, o único lar que conhecemos.



Foi inspirado nessa fotografia, nesse texto e nessa ideia de nossa pequenez no Universo, mas ao mesmo tempo de nosso amor e de nossa capacidade de sonhar e de amar, que escrevi Small blue dot.


terça-feira, 27 de março de 2012

Toquinho e Vinícius




"Quem não gostaria de ser o Vinícius?" Foi ao me pegar dizendo essa frase que pensei em escrever um pouquinho sobre uma das parcerias especiais que Vinícius travou ao longo de sua vida: a parecria com Toquinho. Falar de Vinícius de Moraes em uma única postagem num blog seria por demais incompleto, pois ele era um ser humano dotado de muitas facetas, um dos maiores poetas que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo começou a bordo do navio Eugênio C, em junho de 1970, rumo a Buenos Aires. Toquinho fala sobre isso: "Era um tempo em que Vinicius ainda evitava viajar de avião, então fomos para a Argentina de navio. Eu sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que é que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem até então eu conhecia quase nada, a não ser o que ele tinha escrito e cantado por aí.


Sei que na primeira noite no navio eu passei muito mal, foi um horror. Pegamos uma tempestade no Golfo de Santa Catarina, e eu no meu quarto, enjoado, com tudo a balançar por todos os lados. Até marinheiro vomitava. E Vinicius sentado a uma escrivaninha, segurando o copo para que ele não caísse, e conversando naturalmente, sem se alterar. Ficou lá ao meu lado, como um pai, ou melhor, como alguém com pretensões de se fazer amigo. Nossa relação começou assim, e logo de cara eu passei a vê-lo um pouco como irmão, porque ele não sabia ser velho, o que na realidade ele não era."




A primeira canção de autoria da dupla é Como dizia o poeta. Considero a letra dessa música, de cuja filosofia compartilho às vezes mais às vezes menos (como convém aos sentimentos verdadeiros), belíssima:


Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão


A partir daí, compuseram muito juntos e fizeram diversos shows, com participações de belas vozes femininas da música brasileira, como Maria Creuza e Miúcha.

Um dos motivos determinantes para o sucesso da dupla foi terem se encontrado no momento mais adequado para ambos. Vinícius já havia dado enorme contribuição à música brasileira e se encontrava em um momento de crise criativa. Para muitos, o Poetinha já havia vivido seus melhores dias. Toquinho estava ainda no início de sua carreira e tinha toda disponibilidade para o poeta. Com a identificação mútua e a busca pela simplicidade, as canções nasceram como lindas filhas de um artesanato diário.

De acordo com Toquinho, "naquela altura, eu tinha o que o Vinicius queria: uma pessoa que tivesse disponibilidade para ficar trabalhando com ele, e que tivesse uma linguagem nova. Eu era totalmente disponível e motivado a ficar do lado dele. 

E sempre procurei fazer uma música que não fosse hermética, buscando uma simplicidade que acabou se tornando especial e me caracterizando com um estilo muito próprio dentro da música popular brasileira. Meu repertório se caracteriza pela simplicidade. 

Era o que Vinicius queria. Um comportamento musical ligado com a própria vida, mais solta, livre, natural. Refletia-se tudo isso, por exemplo, nas músicas infantis que fizemos, da melhor qualidade."




Tive a felicidade de ouvir muitas dessas músicas quando era criança, no álbum "Arca de Noé". Desse álbum, reproduzo aqui A casa:




Sobre Vinícius, Toquinho diz:


"Jamais enxerguei Vinicius como um pai de postura paternal e protetora", observa Toquinho. "Mesmo porque ele não agia assim nem com os próprios filhos. A feição de pai surgia por sua grande sabedoria de vida, por saber mais do que a maioria das pessoas. Talvez o homem de maior sabedoria de vida que eu tenha conhecido. Ao mesmo tempo, quando se via diante de uma pessoa muito simples, chegava a se emocionar até os olhos se encherem de lágrimas. 

De repente, esse pretenso ar paterno que ele poderia ter em relação a mim ia por água abaixo quando ele se tornava essa criatura frágil, com toda a sabedoria de poeta. Vinicius carregava dentro dele o jovem disposto e disponível à vida; que arriscava nas coisas, despojado e solto. Na nossa relação, eu era o fio-terra, quem se preocupava aqui embaixo conduzindo as coisas. E ele, o cosmonauta, o voador, que partia mesmo! 

Mas, por mais controvertido que pareça, ele foi a pessoa que me ensinou a ser profissional, a respeitar horários, pessoas e valores. Isso reflete as contradições desse grande poeta, que se debatia entre livrar-se das amarras da vida e seguir as ordens dessa coisa ilógica que é a própria vida. Dizia que o cotidiano é a ferrugem da vida, e fazia tudo para ludibriar essa ferrugem do dia-a-dia. Mas ao mesmo tempo que odiava esse lado massacrante da vida, procurava harmonizar-se com isso tudo. Em cada gesto, em cada passo que dava, nos sentidos mais variados, buscava essa harmonia. Um homem que nunca soube viver sem poesia, e Vinicius viveu como poeta. 

Ser poeta é uma coisa. Mas viver como poeta é dilacerante, arrebenta o homem por dentro. Na rapidez do cotidiano quase sempre não cabe a poesia, e o Vinicius não conseguia viver longe dela. A poesia o acompanhava o tempo inteiro e ele se debatia com ela, sempre suscetível ao enfoque poético das pessoas e das coisas. Para ele, tudo era natural. Vinicius me passou todas essas variáveis humanas e, se aprendi, é porque já devia ter uma tendência para isso".

Uma dos momentos de que mais gosto da dupla é um show que fizeram com a cantora Maria Creuza. reproduzo aqui um momento em que tocaram Como dizia o poeta e a singela Onde anda você, linda canção de saudade. Aliás, o tema "músicas de saudade" é um tema ao qual quero dedicar uma postagem deste blog. Nesse quesito, Vinícius era também mestre:



Belíssimo momento, pra ficar na história.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Manuel Bandeira e as letras de música




Nem todo mundo sabe, mas Manuel Bandeira teve vários poemas musicados e fez letras para várias canções de compositores como Villa-Lobos, Jaime Ovalle, Radamés Gnattali e Mignone. Em Itinerário de Pasárgada o poeta faz alguns comentários sobre sua obra musical e sobre o ofício de fazer letras.
É interessante notar como a opinião dele fecha com a de letristas como Murilo Antunes e Fernando Brant que, no livro Palavras Musicais, emitem uma opinião semelhante no que diz respeito à diferença entre escrever um poema e uma letra de música. Ele diz:


"Pode suceder que depois de pronto o trabalho o compositor ensaia a música e diz: 'Ah, você tem que mudar esta rima em i, porque a nota é agudíssima e fica muito difícil emiti-la nessa vogal.' E lá se vai a igrejinha do poeta! Do poeta propriamente, não: nesse ofício costumo pôr a poesia de lado e a única coisa que procuro é achar as palavras que caiam bem no compasso e no sentimento da melodia."


Um outro comentário que Bandeira faz a respeito de música e que eu considero de valor histórico é sobre o Parabéns pra você:


"Em 1945 Villa-Lobos, tomado de nojo pela mania em que andavam (e ainda andam) os brasileiros de cantar nas festas de aniversário a cacetíssima Happy Birthday to You, resolveu compor para essa e outras ocasiões uma série de canções de sabor brasileiro, a que deu o título de Canções de Cordialidade."




E reafirma sua valorização da língua do povo, "que fala gostoso o português do Brasil":

"Nos textos para essas canções tive a preocupação de me servir tanto quanto possível das frases feitas da nossa linguagem coloquial. Sobretudo em 'Boas-Vindas': 


'Amigo, seja bem-vindo! 
A casa é sua. 
Não faça cerimônia. 
Vá pedindo, vá mandando'."


Segundo Bandeira, ele (modestamente) não sabia a que atribuir a predileção de vários compositores por sua parceria. Cita, porém, como elemento primordial a musicalidade encontrada em sua poesia. A partir de comentários do crítico Andrade Muricy, faz algumas considerações sobre a musicalidade dos versos, seus limites e sobre até que ponto as duas artes (poesia e música) estão entrelaçadas:


"Há nessas palavras do crítico uma nota preciosa: é quando ele fala na musicalidade - de música propriamente dita - inserida na musicalidade subentendida, por vezes inexpressa ou simplesmente indicada, da poesia. A isso eu já havia chegado em minhas reflexões, estudando a música a que os meus versos serviram de texto. Foi vendo "a musicalidade subentendida" dos meus poemas desentranhada em "música propriamente dita" que compreendi não haver verdadeiramente música num poema e que dizer que um verso canta é falar por imagem. [...] A 'musicalidade subentendida' poderia ser definida por outro músico noutra linha melódica. O texto será como que baixo-numerado contendo em potência numerosas melodias"

Mário de Andrade, em seu Pequena História da Música, afirma que a música, apesar de escrava da palavra, tornara-se uma escrava despótica. "Não deixa a palavra falar por si. Quer sublinhar o sentido dela por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias e timbres."

Para Bandeira, porém, a música nunca deixou a palavra "'falar por si', mesmo no tempo do cantochão. É que por maiores que sejam as afinidades entre duas artes, sempre as separa uma espécie de abismo. Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente."


Mallarmé definiu em Divagations que "as palavras iluminam-se de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias... Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra: buscar diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados, próximos da instrumentação, uma arte de rematar a transposiçãao para o livro da sinfonia..."

Bandeira concorda com essas afirmações mas reforça que "a autêntica melodia estará sempre ausente". Dessa forma achou a resposta que Mallarmé deu a Debussy - "Je croyais y en avoir mis dejá assez" (algo como "creio já ter colocado o suficiente"), quando este lhe comunicou haver colocado música em seu poema L'apres-midi d'un faune "descabida presunção de poeta". Bandeira diz: "Tinha posto muita, com efeito, mas só e a bastante que um poeta pode pôr nos seus poemas."


MANET, Edouard. Retrato de Stéphane Mallarmé. 1876. Óleo sobre tela. Musée d'Orsay. Paris, França.

Encerrando estes breves comentários, gostaria apenas de deixar aqui uma das ilustrações do poema L'aprés-midi d'un faune, feita por Manet, um dos pais da Arte Moderna, e o link para a música de Debussy, que é considerada um divisor de águas na história da música, uma das que deram o pontapé inicial na Música Moderna.


O poema conta a história de um fauno que toca sua flauta pelos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, e tenta alcançá-las em vão. Então, muito cansado e fraco, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam a atingir os objetivos que dentro da realidade não tinha alcançado.





quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Jethro Tull - Aqualung


Clássico incontestável do rock 'n roll, quarto álbum da carreira da banda, lançado em 1971, foi o primeiro com o tecladista John Evan (abaixo) como membro full-time, o primeiro com o baixista

Jeffrey Hammond e último com o baterista Clive Bunker. Ian Anderson, como sempre, assumia vocais, violão, flauta e boa parte das composições e produção. Martin Barre já era, desde 1969, o guitarrista.

Aqualung foi um dos primeiros álbuns a ser gravados no estúdio Island Records, na Basing Street, em Londres. Na mesma época, nesse estúdio, o Led estava mixando seu disco IV.

A primeira faixa é a que dá nome ao álbum, a lendária Aqualung. Abrindo o "lado A" com um dos riffs mais famosos de todos os tempos, a faixa-título dá um bom prenúncio do que há por vir. Assim que você coloca esse disco pra tocar, sente que está sendo transportado pra um clima todo próprio desse álbum. Não sei quanto a vocês, mas me sinto levado a uma espécie de taberna do interior da Escócia, num tempo indefinido, um entre-lugar.

A faixa Aqualung fala sobre um mendigo e foi baseada em fotografias que a esposa de Ian Anderson fazia. Aqualung é aquele aparelho que os mergulhadores usam para respirar debaixo d'água. O nome do personagem é esse devido ao som que sua respiração pesada faria.

Depois, temos a magnífica faixa Cross-Eyed Mary (Maria Caolha), que tem um dos meuss riffs preferidos também. Além da flauta mágica do Ian Anderson mostrar a que veio. Ela fala da história de uma prostituta infantil, que ele chama de Robin Hood de Highgate.

Cheap Day Return é uma faixa curta e cantada apenas com voz e violão, mas belíssima. Auto-biográfica, Ian a compôs quando voltava de uma visita ao hospital onde estava seu pai, seriamente doente. Ela tem versos muito tocantes, doces mas cheios de uma ironia amarga:

"does the nurse treat your old man
the way she should.
She made you tea,
asked for your autograph --
what a laugh"

"a enfermeira te trata do jeito que deve, meu velho?
Ela te fez chá, pediu um autógrafo --
Que piada"



Depois, temos a ótima Mother Goose. Com um violão como sempre muito bem tocado, ela é quase toda acústica, com muito boa percussão.
Em seguida, temos outra de minhas músicas preferidas: Wond'ring Aloud.
Ela começa com o violão e o belíssimo vocal do Ian Anderson. Tem um belíssimo arranjo de cordas e piano. Os versos são simplesmente lindos.É uma grande canção de amor e nos brinda com versos muito simples, mas de uma beleza singela e tocável, numa cena de amor do dia-a-dia.

"Wond'ring aloud --
will the years treat us well.
As she floats in the kitchen,
I'm tasting the smell
of toast as the butter runs.
Then she comes, spilling crumbs on the bed
and I shake my head.
And it's only the giving
that makes you what you are."

"Pensando alto --
os anos nos tratarão bem?
Enquanto ela flutua pela cozinha
saboreio o cheiro
da torrada enquanto corre a manteiga.
Aí ela vem, deixando cair migalhas na cama
e eu balanço a cabeça.
E é só o que você dá
que te faz o que você é."

Depois, temos Up to me, que, pra mim, é a que tem mais o tal clima de taberna de que falei no início.

Em seguida, temos My God, que é um caso à parte. Ela é uma música pró-Deus, mas anti-religião, que, segundo Anderson, aprisionaria Deus numa gaiola de ouro, deixando de lado a essência divina, para se apegar às formas de seus dogmas religiosos. A maneira como é abordado o tema da canção está de acordo com uma frase escrita na parte de trás do álbum, parodiando o Gênese, em que se lê: "No início, o homem criou a Deus e fez Deus à sua imagem e semelhança". O que ele quer dizer com essa frase é que o homem criou uma ideia de Deus baseada em si mesmo, sem levar em conta a inefabilidade da divindade.

Essa canção conta com um violão sensacional no início, depois a música é cortada por um riff fortíssimo cujas duas notas iniciais considero dignas da mesma sensação que temos ao ouvir as quatro notas iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoveen. Essa mesma semelhança, aliás, pode ser notada na faixa-título, Aqualung.

O álbum segue com o delicioso rock n' roll Hymn 43, a tocante Slipstream, temos o grande piano e guitarra de Locomotive Breath, de cuja introdução eu poderia falar horas e que vai num crescendo até ficar só o som da guitarra distorcida de Martin Barre, momento em que entra a banda num ritmo contagiante. Fechando o álbum, temos Wind Up, com sua temática pró-Deus / anti-religião. Essa música tem uma melodia belíssima e aborda o tema do ponto de vista de um garoto em idade escolar que tem seus questionamentos sobre a religião formal e tem seu próprio diálogo com Deus, que lhe diz que

"I'm not the kind you have to wind up on Sundays"

"Eu não sou do tipo em que você tem que dar corda aos domingos"

O garoto ainda manda um recado aos falsos religiosos, que estão amparados muito mais a uma questão formal e burocrática com a divindade, que, de fato, inspirados por um real sentimento religioso, dizendo que

"In your pomp and all your glory you're a poorer man than me"

"Em toda sua pompa e glória, vocês são homens mais pobres que eu".

Aqualung é um álbum obrigatório pra qualquer um que curte o bom e velho rock 'n roll dos anos 70. Ideal pra jogar xadrez, numa taberna à luz de velas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um solo do Gilmour

Há um tempo atrás, comecei a gravar alguns dos solos que mais gostei de aprender a tocar e gostaria de dividir alguns dos que eu fiz com os leitores do blog.

Um dos primeiros foi Time, do Pink Floyd. Depois reeditei o vídeo, com alguns outros recursos, que é a versão que estou postando aqui.

Sempre é bom lembrar que tocar um solo do Pink Floyd, pra mim, é uma coisa de outro mundo, pois sempre tive o Gilmour como um verdadeiro mestre, além de achar a banda simplesmente o máximo. Espero que todos curtam!

sábado, 10 de setembro de 2011

Lô Borges - A Via-láctea



Inaugurando o espaço para comentários sobre discos inesquecíveis, quero falar de um disco que está com toda certeza entre meus preferidos de todos os tempos. Segundo disco solo de Lô Borges, A Via-láctea foi lançado seis anos após o disco do tênis. Houve um hiato grande entre esses dois discos pois o disco do tênis foi gravado sob muita pressão, tendo sido gravado no mesmo ano em que Clube da Esquina, álbum que Lô, na época com 17, 18 anos, foi convidado a dividir com Milton Nascimento.

Segundo Lô: "Existe um grande hiato entre os discos Tênis e Via Láctea exatamente porque aí eu queria me estruturar como compositor. Foi a coisa mais sábia que eu fiz na minha vida, foi interromper a minha carreira naquele momento, minha carreira discográfica. Porque aí eu fui me solidificar como compositor, como ser humano, como, eu quis. Aí, eu fui sabe, viver a minha vida, ter uma bagagem musical, ter músicas pra quando eu fizesse um disco não precisasse fazer a música de manhã, a letra de tarde e a música à noite, e a gravação à noite. Aí eu parei seis anos, não parei com a música, pelo contrário, aí eu comecei a compor, falei, pô existe uma perspectiva profissional na minha vida, interessante, eu tenho que me solidificar como compositor, tenho que ter uma bagagem, eu tenho que ter uma quantidade de músicas suficiente pra quando eu for convidado a fazer um disco. Fazer um disco sem ser essa pilha, esse stress que foi o disco do tênis, entendeu?"

A Via-Láctea foi lançado em 1979 e teve como produtor Milton Nascimento. A maioria das canções surgiu de parcerias do Lô com seu irmão Márcio Borges e foram escritas quando o Márcio morava num casarão no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

O lado A do disco é aberto apenas por um violão, que logo é acompanhado por toda a banda num ritmo inconfundível e altamente contagiante. Sempre-viva tem letra de Márcio Borges.

"Já estava bem preparado no ventre de toda mulher
Já escrito assim na parede das celas
das praças de qualquer país

Passageira chama fogo da vida
A vontade livre tudo intimida por simples ser"

Em seguida, temos a balada Ela, que também tem um ritmo delicioso. Aliás, o ritmo é um elemento importantíssimo nesse disco e em toda a carreira do Lô. Assim como Ela, várias das músicas desse disco são em compasso ternário. Destaco, entre tantos elementos, o Arp Omni tocado por Wagner Tiso e as guitarras do Lô, do Paulinho e do Cláudio Venturini. Como, durante anos, eu fiquei sem saber o que era um Arp Omni, aí vai uma foto desse maravilhoso sintetizador.

Parceria de Lô Borges e o carioca Ronaldo Bastos, A Via-láctea, terceira canção do disco, é daquelas canções que são fantásticas em todos os seus aspectos, ficando difícil destacar alguma coisa sem ser injusto com muitas outras. A orquestração e regência foram feitas pelo Toninho Horta, que também tocou o piano. A canção tem belíssimo arranjo de cordas e flautas, que é impossível descrever.



"Caravela
Pão e mel
segue o circo a rolar
Picadeiros
Primaveras
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia a viver na espuma do mar
O grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é
Ter esse destino de pessoa que sonhou

Que navega no céu
e navega no ar
grão de areia a bailar lá no fundo do azul
e anda que nem bola, como a vida quando quer brotar
rola como onda, que nem fonte de calor"


Em seguida temos Clube da Esquina nº2, que foi originalmente gravada no álbum Clube da Esquina, como instrumental. Na época, segundo Márcio Borges, todos os letristas chegados aos autores (Lô Borges e Milton Nascimento) queriam colocar letra na música, mas não recebiam permissão dos dois ("senão deixa de ser instrumental"). Num encontro com Nana Caimmy, Márcio foi encorajado por ela a escrever uma letra porque ela queria "gravar essa porra, mas sem letra não dá". Ela lhe sugeriu que ele fizesse a letra e ela gravaria, e só então ela mesmo mostraria a Lô e Milton. E foi o que ela fez. Apesar de o Milton ainda ter resisitido um pouco à idéia, Clube da Esquina agora tinha letra, e uma letra belíssima. Certamente uma das minhas letras preferidas, cantada pelo Lô e sua irmã, Solange Borges, dona de uma linda voz e que também canta em Vento de maio.


"Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
viagem de ventania
nem lembra se olhou pra trás
ao primeiro passo, aço, aço, aço, aço

porque se chamavam homens
também se chamavam sonhos
e sonhos não envelhecem
em meio a tantos gases lacrimogênios
ficam calmos calmos calmos calmos calmos

e lá se vai mais um dia

e basta contar compasso
e basta contar consigo
que a chama não tem pavio
de tudo se faz canção
e o coração na curva de um rio rio rio

e lá se vai mais um dia

e o rio de asfalto e gente
entorna pelas ladeiras
entope o meio-fio
esquina mais de um milhão quero ver então
a gente gente gente gente gente"


Em seguida temos a "sinfônica" A olho nu, que começa com piano e um baixo que canta as notas fazendo um contraponto muito bom com a melodia da voz. Toda a parte rítmica dessa música funciona muitíssimo bem, e a brilhante orquestração do Wagner Tiso dá o peso exato que a música precisa ao mesmo tempo em que passa uma leveza enorme nos momentos certos. A vinheta no fim da música é um dos momentos mais empolgantes do disco, com a guitarra do Cláudio Venturini gritando. Aproveitando a menção ao baixo, é importante frisar que, nesse disco, o baixo desempenha um espetáculo à parte. Do início ao fim, é tocado brilhantemente por Paulinho Carvalho. Sou guitarrista, mas se tenho um baixo e tenho enorme apreciação por esse instrumento, grande parte disso se deve às emoções que já experimentei ouvindo o baixo nesse disco.

O lado B começa com o piano e órgão de Equatorial, que é parceria de Lô Borges e Beto Guedes e tem letra de Márcio Borges.

Depois temos Vento de maio, que foi outra letra feita pelo Márcio Borges sem o conhecimento do autor, no caso seu irmão Telo. "Telo tinha composto dois pequenos temas para duas peças infantis produzidas por um grupo de teatro amador em Belo Horizonte." Lô queria fazer uma surpresa para o irmão, unificando os dois temas através de uma única letra e gravar a música primeiro, antes de lhe mostrar.
Segundo Márcio Borges, "sentia-me triste, sozinho e abandonado. A letra que saiu foi Vento de maio".




"Vento de raio
rainha de maio
estrela cadente
chegou de repente
o fim da viagem
agora já não dá mais pra voltar atrás"

Ainda segundo ele, é citado o poeta Paulo Leminsky ("Este Paulo Leminsky/É um cachorro doido/que deve ser morto/a pau, a pedra, a pique/Senão é bem capaz/ o filho da puta/ de fazer chover no meu piquenique") no trecho

"...valeu o teu pique
apenas para chover
no meu piquenique..."

Depois, de Fernando Orly, temos a belíssima Chuva na montanha, que tem uma guitarra marcante tocada por Lô e conta com fernando Orly na viola de 12.

"corre estrada gira mundo e na cabeça
torre de babel
como pode haver um rio
sem a chuva da montanha
pra poder seguir
sou um rio que procura o mar
minha chuva chove de você
e a gente vai andando
vai amando até o fim"

Em seguida temos a brilhante Tudo que você podia ser, que já havia sido gravada no disco Clube da esquina, mas que aqui, ganha uma interpretação totalmente nova, privilegiando o uso da guitarra e contando com um acordeon. Essa música tem um instrumental acima de qualquer crítica, por isso não vou divagar sobre ele aqui. É necessário ouvi-lo. Parafrasenado o Bilac, "ouvi-o para compreendê-lo".

"com sol e chuva
você sonhava que ia ser melhor depois
você queria ser o grande heróis das estradas
tudo que você queria ser

sei um segredo
você tem medo
só pensa agora em voltar
não fala mais na bota e no anel de Zapata
tudo que você devia ser sem medo"

Fechando o álbum, temos as belas Olha o bicho livre, de Paulinho Carvalho e Rodrigo Este e Nau sem rumo, que tem um clima que eu não consigo definir, mas que adoro.

"onde foi parar a cuca dos caras
que aguentaram a barra
de lutar por nossas ruas
mover
ou mais simplesmente ser
a poeira da estrela
ser agora e saber"


Na foto: Lô, Duca, Márcio Borges e Milton em Diamantina.